Despertar
A paixão pelos livros e pela arte
Bom, vamos começar pelo início dessa história.
Quando criança, me lembro de minha mãe contando algumas histórias inventadas por ela e que a cada dia era contada de um jeito. Lembro também de outras histórias contadas pela babá que morava conosco. Mas a minha primeira lembrança relativa a algum livro, veio da escola, através dos livros de uma autora chamada Iêda Dias (O Barquinho Amarelo e Brinquedos da noite). Eram livros de histórias nos quais as personagens descobriam as maravilhas de um universo rural, de animais e plantações. Morava em Belo Horizonte e esse mundo era distante de minha realidade. Me lembro que esses livros me acompanhavam e ficava horas imaginando como seria viver aquelas experiências. Devia ter entre 6 e 7 anos nessa época.
Certo dia eu descobri que Iêda, a autora que eu tanto admirava, era natural de Carmo da Mata, cidade da família de minha mãe e que frequentávamos constantemente em feriados e férias. Pedi então aos meus pais para me levarem à casa dela. Não tenho lembrança clara desse encontro, sempre fui uma criança e adolescente muito tímida, mas lembro da expectativa de encontrar uma pessoa diferente, pois pra mim quem tinha nome em capa de livro era alguém muitíssimo importante. Quando vi que uma escritora era gente como a gente, conhecia minha família e usava roupas normais (sério, esperava uma mulher vestida de deusa), nasceu ali a sensação de que eu também poderia ser escritora um dia.
A vida seguiu e os livros seguiram comigo. Lia com prazer as obras clássicas indicadas pela escola, aprendi com meu pai a ler jornais e revistas, frequentava assiduamente a biblioteca escolar em busca de romances e crônicas, meus gêneros favoritos à época. Na adolescência, fui uma escritora de cartas e poemas, tinha cadernos onde anotava pensamentos autorais e reflexões das leituras que fazia. Sempre era convocada a escrever os textos das homenagens familiares. Paralelo a isso, organizava em casa shows, saraus e teatros para os vizinhos do prédio. A arte, as palavras e o ativismo cultural já estavam ali.
Importante ressaltar que falo de meados dos anos 70 para 80. Nessa época era difícil alguma família incentivar a profissionalização da arte e entender a necessidade de expressão artística. Fico pensando se meus pais tivessem percebido e incentivado mais esse amor ao livro e às manifestações artísticas, o caminho teria se encurtado, porém o ‘se’ é a partícula avacalhadora da vida, né?
Melhor pensar que as coisas acontecem em seu próprio tempo. Já superei essa sensação de correr contra o tempo perdido.
Fato é que fiz magistério, fui lecionar na educação infantil e entre jornalismo e biologia, escolhi cursar graduação em Ciências Biológicas. Estas escolhas provocaram uma hibernação da escritora/artista que morava em mim, meu universo orbitou entre estudos científicos e a sala de aula por muito tempo.
Até que....
Na próxima semana a história continua. Deixo aqui uma breve biografia de Iêda Dias, escritora importante no Brasil da década de 70 e 80 por seu projeto de alfabetização e que tem livros lindos de poesia. Alguém conhece?
O Barquinho amarelo virou peça de teatro, assista o vídeo aqui
Grande abraço,




Li esses livros entre 1988 e 1989. Marcaram minha infância. Adorei conhecer mais de você!
Amei ler o início desta história! Sou de Carmópolis, pertinho de Carmo da Mata. Que bom saber que as escritoras de verdade estão por aí, pertinho da gente...